É a notícia da semana no mundo telejornalístico: Fátima Bernardes deixa a bancada do Jornal Nacional e vai para um programa (misterioso) ainda não divulgado. Reza a lenda que ela vai apresentar um programa de entrevistas pela manhã. Quem viver verá! Semana passada falamos por aqui da saída dela, da sua substituta e os motivos que talvez a tenham levado a essa decisão. Ontem foi o fim dos quase 15 anos em que ela sentou na bancada do JN, como dá pra ver no vídeo completo do telejornal com retrospectivas sobre a carreira dela e a de Patrícia Poeta.

Sem dúvida uma das coisas que mais chamaram a atenção nessa mudança foi o corte de cabelo de Patrícia Poeta, que perdeu as longas madeixas tipo “Maria Madalena Arrependida” e caiu na tesoura da seriedade e caretice do JN. Eu acho que o cabelo ficou bonito, mas a questão não é essa. Ela ficou décadas usando o cabelo longo e essa mudança é totalmente simbólica, marcando território, mudança, agora ela não é mais dona das próprias madeixas (e quem sabe das próprias roupas, ou ideias, ou maquiagem…). Eu aposto que quem está esperando ver os figurinos famosos e glamourosos do Fantástico no JN, vai se decepcionar.
A questão dos cabelos no telejornalismo brasileiro é séria, é um reflexo de toda a poda estética pela qual a mulher é obrigada a passar, mesmo que não de forma oficial, e sim cotidiana. Quantas repórteres e apresentadoras passam pelo mesmo ritual de passagem na hora de assumir suas funções em frente às câmeras? Lágrimas são comuns, e para os mais antigos parece que demonstra o verdadeiro envolvimento da novata com o compromisso que está assumindo, mas na verdade é um preconceito institucionalizado, em nome de uma suposta credibilidade, primando pelo modelo ariano.

É só olhar as imagens dos apresentadores e apresentadoras que se revezam na bancada do JN para perceber que elas adotaram a estética padrão do programa. Cabelos curtos, lisos que remetem à estética andrógina, aquela em que homens e mulheres são esteticamente parecidos, muitas vezes até confundidos. Essa informação quase “assexuada” da mulher no telejornal é reforçada por outras mensagens simultâneas: maquiagem básica, acessórios discretos, o uso de roupas sérias, com cores sóbrias, estruturadas e claramente inspiradas no traje formal masculino, o terno. A escritora Fischer-Mirkin diz que não é mistério o motivo pelo qual iríamos desejar investir nas qualidades masculinas, uma vez que, historicamente, os homens têm alcançado uma série de oportunidades e privilégios negados às mulheres. Usar roupa e cabelo “de homem” é uma maneira simbólica de herdar essa posição privilegiada. Parece que, ainda hoje, ser feminina e ser profissional competente num ambiente tipicamente masculino não são características que possam andar juntas e depõem contra o trabalho da mulher. Com o jornalismo não parece ser diferente, já que se trata de um ambiente extremamente masculino, apesar do crescente número de mulheres na profissão e de elas serem maioria nas universidades de comunicação do país.
Voltando aos cabelos, tem uma história que me impressiona e está diretamente ligada à BBC, de Londres, considerada uma das melhores TVs do mundo. Veio de lá um escândalo envolvendo uma apresentadora antiga da casa, que teria sido demitida por estar velha. Miriam O’Reilly, de 53 anos, venceu a rede de televisão BBC em um raro processo judicial de discriminação por idade. Eles a perseguiam por causa das rugas e também por causa dos cabelos brancos (ela se negava aplicar um spray preto no cabelo todo dia antes de apresentar o seu programa).

Mas se engana quem pensa que isso só acontece em outros países, o preconceito “capilar”, ou estético mesmo, no Brasil é muito sério e abrange desde telejornais até as outras esferas da sociedade. Cabelo crespo, cacheado, ondulado ou branco são mal vistos em mulheres que querem seriedade e/ou credibilidade. Essa semana fiquei chocada com um caso que deve acontecer muito. Uma estagiária de uma empresa de educação em São Paulo sofreu assédio moral no trabalho por não alisar o cabelo. Absurdo isso! O Brasil repete preconceitos baseados em estereótipos todos os dias, e o pior, a gente nem se dá conta disso. “Cabelo ruim” virou sinônimo daquele que não é liso. A expressão “boa aparência” é usada frequentemente para disfarçar esses preconceitos, seja na TV, na escola, nas ruas ou em casa. Até quando?
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