
Faz tempo que estou querendo falar sobre esse assunto, mas só arrumei tempo para isso agora. No segundo semestre do ano passado eu vi um comercial de uma sandália da Barbie fabricada pela Grendene que vem com – surpresa – uma chapinha. E ela não é para alisar o cabelo da boneca não, é para fazer o procedimento no cabelo das meninas mesmo. Fiquei chocada, não apenas pelo comercial mas por perceber que no livre universo da web muita gente tem anunciado publicamente fazer tratamentos para alisamentos, inclusive com processos químicos, em crianças de menos de 3 anos de idade. Lógico que fazem isso em casa, já que muitos salões e profissionais se negam (por medida de segurança e saúde) a fazer esse tipo de procedimento em crianças menores de oito ou dez anos.
É claro que a indústria sente as tendências de mercado e reverbera elas. A Grendene parece ter se arrependido do produto já que o comercial desapareceu das redes sociais e o produto ficou raro de encontrar nos últimos meses, mas acredito que isso tenha se dado muito mais pelas reclamações de mal funcionamento do produto do que por questões éticas. Alguns talvez leiam esse post sem entender o porquê do meu espanto, e explico que ele se justifica porque eu levanto a bandeira da não-padronização, do não-preconceito estético e digo não também aos modelos estereotipados de beleza. Falei um pouco sobre isso nesse post sobre a beleza negra e nesse post com um artigo acadêmico meu sobre estereótipos no telejornalismo brasileiro.
Nós, adultos, consumidores, pais, comunicadores, estamos cada vez mais colaborando para uma sociedade padronizada e estereotipada desde a infância, e fazemos isso de várias formas e a principal delas é com os nossos próprios exemplos. Até quando reproduziremos esse discurso arianista de que cabelo liso é igual a “cabelo bom” e cabelo cacheado é sinônimo e “cabelo ruim”? Eu sou a última a apontar o dedo julgando encontrar “culpados”, mas a primeira a levantar a mão e dizer que precisamos mudar. Outra discussão que precisa ser feita diz respeito à publicidade para crianças. É uma questão séria que o Conar sempre bate em cima. Uma visão esclarecedora a esse respeito está no documentário abaixo: Criança – A alma do negócio. São 50 minutos que valem a pena, não para definir o pensamento sobre o assunto, mas quem sabe para incitar cada vez mais a discussão.
Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que um adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falama diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumes. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.
Direção Estela Renner
Produção Executiva Marcos Nisti
Maria Farinha Produções



























