
O evento mais aguardado da semana no mundo fashion pessoense aconteceu ontem à noite. Foi a palestra da estilista Fernanda Yamamoto, de São Paulo, no auditório do Sebrae. Fechado para convidados, o espaço estava repleto de estudantes e profissionais de moda que se deliciaram com as dicas da profissional conhecida pela criatividade e inovação. Foram mais de duas horas de encantamento sobre um processo que começa sempre em um mergulho nas referências, passa obrigatoriamente pela elaboração do tecido e cai de cabeça em experimentações e modelagens fora do comum. Trilhando o caminho limítrofe entre o conceitual e o comercial, Fernanda demonstra a simplicidade e humildade típica dos sábios em suas artes e afirma: “o resultado é 99% transpiração e 1% inspiração”.

Se você não esteve por lá e quer conhecer um pouco mais sobre o trabalho dessa criadora, eu trago aqui hoje alguns dos melhores momentos da palestra, pontuado também por observações de quem está tendo o prazer de conviver um pouco mais com ela – já que sou jurada do concurso FashionTech da Estação da Moda ao lado dela. No evento ela traçou um panorama do seu processo de criação de quatro coleções passadas até chegar a mais atual, destacando que esse é o processo que ela segue e que não pode funcionar como uma regra, cada um tem que construir o seu jeito. A estilista contou que o seu processo de criação não é linear e muitas etapas acontecem paralelamente e às vezes “de um erro sai um acerto”. Vamos aos detalhes?
Verão 2011
Fernanda contou do seu olhar diferenciado sobre a cidade de São Paulo, que serviu de inspiração para esta coleção. Ela enxergou a cidade de forma poética e buscou nos elementos e nas ruas da cidade a leveza, a delicadeza e ao mesmo tempo a densidade da maior cidade do país. Paralelamente à essas referências, ela foi buscar uma de suas técnicas preferidas de tecelagem, a feltragem. Nas suas buscas sobre a origem do tecido, começou a compor a própria matéria prima para a confecção da coleção. Tratou, tingiu e compôs a lã manualmente num processo que intitulou de “maquetes têxteis”, construindo um tecido inspirado nos telhados e na vista aérea da cidade de São Paulo. “Cada metro de tecido feito nesse processo manual leva cerca de dois dias para ficar pronto”, contou a estilista, que diz curtir cada etapa do processo e aprimorar as técnicas a cada experiência.

Inverno 2011
Desta vez inspirada no círculo – símbolo secular carregado de significados em todos os povos da humanidade, a coleção veio carregada de simplicidade e deu continuidade ao processo desenvolvido anteriormente com a feltragem. Para dar uma nova cara o tecido, resolveu acrescentar uma outra técnica secular ao processo, a arte japonesa de fazer papel de arroz manualmente, chamada de Washi. “Desta vez o tecido teve mais presença da lã por ser uma coleção de inverno”, explicou Fernanda, mostrando que além de criar formas, a elaboração do tecido também é parte essencial do seu processo criativo e é carregado de significados.

Verão 2012
Nesta coleção o ponto de partida da criação foi as imagens da natureza e Fernanda trabalhou mais uma vez na construção do tecido, só que agora através de linhas que representavam raízes. Foi nesta coleção que ela incorporou um dos símbolos mais pops da cultura mundial hoje, a Hello Kitty. Mas o grande dilema dela foi como interpretar esse símbolo tão massificado de forma diferente. O caminho encontrado pela estilista foi deformar e disfarçar a imagem para que ela continuasse presente porém não de forma não evidente. “Para esse processo trabalhei com estêncil e estampas com a carinha da personagem camuflada nos tecidos”, disse Fernanda, explicando ainda que usou elementos encontrados em casa como farinha e açúcar para “distorcer” a imagem. Também foram usadas imagens das torradeiras que deixam a carinha da Hello Kitty para estampar tecidos que deram origem às peças.
Inverno 2012
O pontapé dessa coleção foi as imagens dos quadros renascentistas que ilustram a imagem de Bianca Maria Sforza. Elas decoraram a barra do tecido tecnológico criado para as novas peças que tinham o Jacar como base inspiradora, criando um tecido exclusivo para a coleção. Para incrementar outras partes de tecido listrado usados pera representar as referências ela foi buscar a técnica do silk usando um tom de ouro velho, uma verdadeira garimpagem de elementos para compor a teia das peças. “Eu gosto de manter sempre a relação com o trabalho artesanal, portanto depois do trabalho executado eu ainda acrescentei a colagem de pedrinhas – uma por uma – em algumas peças”, destacou Fernanda, explicando que foram muitas horas nesse trabalho manual que verdadeiramente diferencia uma vestimenta industrializada daquela feita a mão.

Verão 2013
A coleção mais recente da estilista, que figurou nas passarelas da última edição do SPFW, teve como tema a geometria. Para isso ela misturou duas referências que, a seu ver, foram complementares: as obras do arquiteto mexicano Luiz Barragán e do artista plástico Hélio Oiticica. Ela explicou na palestra que ambos trabalham com cores fortes e elementos que lembram as dobraduras do origami, luz e sombras. Esse foi o ponto de partida para fazer as novas maquetes têxteis, onde trabalhou com bordados em linhas brilhosas na materialização da inspiração.
A palestra foi uma verdadeira aula de moda e de criação, uma noite inspiradora, fechada com chave de ouro pelas afirmações da estilista, dizendo, entre outras coisas, que é possível continuar conceitual e criativo sem perder o lado comercial. Para isso o segredo de Fernanda Yamamoto é não se prender ao comercial durante o processo criativo, senão acaba fazendo coleção de show-room e não experimentação, que é seu foco.





Sobre a Estação da Moda


