
Nem só de tendências vive o mundo da moda. A pesquisa histórica sobre modos de vestir de grupos distintos é uma parte importante dessa área e acaba servindo de ferramenta para ajudar a contar um pouco da história das culturas onde essas modas estão inseridas. Esse é o caso do livro de luxo lançado pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello (uma verdadeira autoridade no assunto): Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço. Uma obra minuciosa, com 258 páginas repletas de fotos raras e de imagens das cerca de 160 peças da coleção particular do autor. É a primeira vez que um livro faz um levantamento profundo e detalhado sobre a vestimenta dos homens e mulheres cangaceiros. O prefácio do livro é escrito por ninguém menos que Ariano Suassuna. É certamente uma das melhores aquisições da minha biblioteca fashion. É uma obra é da Editora Escritas e é relativamente cara para o bolso do brasileiro, custa em média R$ 150,00, mas vale cada centavo. É repleto de imagens coloridas, tem as bordas das páginas pintadas em prateado, aplicação de tecido na capa e fotos históricas de página inteira, além do conteúdo incrível, claro. Não é a toa que o livro foi finalista do Prêmio Jabuti 2011 nas categorias Produção Gráfica e Ciências Humanas.


Os detalhes mostrados pela obra ajudam a explicar muita coisa do jeito nordestino de ser. Enquanto os bandoleiros tradicionais vestiam trajes de cores escuras e se escondiam da polícia, os cangaceiros tinham orgulho do traje, se enfeitavam com anéis, medalhas, lenços coloridos, bordaduras, chapéus de couro com estrelas e moedas, e muitas peças chamativas. Sem dúvida uma opção estética rica, peculiar e original, que ajuda a dar origem à imagem um tanto mística que o cangaceiro criou ao longo do tempo.

Você sabia, por exemplo, que Lampião andava pelo sertão nordestino com máquinas de costura de ferro para poder fazer as peças do bando que o acompanhava? Que ele concebia muitas das peças usadas pelos cangaceiros? Você sabe o significado das estrelas dos chapéus? Que as sandálias de couro tinham enfeites e correias que as prendiam aos tornozelos para aguentar o tranco das caminhadas pelo meio do mato? Que os cangaceiros que tinham o cabelo comprido o prendiam com pentes típicos dos penteados femininos? E que as roupas eram tão chamativas que podiam ser vistas de longe, até mesmo à noite?

Essas e outras curiosidades da vestimenta desses homens e mulheres do nosso passado recente ajudam a explicar melhor quem eram e o que faziam. Nos aproximar dessa estética nos faz entender um pouco mais também de quem somos e a entender o orgulho que essas pessoas sentiam de ser o que eram: homens e mulheres fora da lei e que queriam ser felizes assim.
Outra dica para saber um pouco mais sobre o livro é ver a entrevista que Frederico Pernambucano de Melo concedeu ao programa de Jô Soares na época do lançamento. Para facilitar a vida dos curiosos no assunto, eu trago os vídeos aqui.
Para quem gosta do assunto, sugiro um texto delicioso, profundo e completo da minha querida e talentosa amiga natalense Gladis Vivani, que tem o blog Salto Agulha. No post ela dá alguns detalhes e curiosidades sobre a moda e a estética do sertão, vale a pena. Para ver, clique aqui.

































